(hoje é dia 19 de Abril, estou de
volta de Toronto e vou continuar o resumo da semana 3 – atrasadíssimo!)
6f fomos jantar fora novamente. Foi um dia em que não almocei, cheguei à clínica por volta das 16h30 e a Dra Susan foi buscar-me às 18h. Fomos jantar a Le Roy, uma cidade relativamente perto de Attica mas mais desenvolvida. Não sabia mas o Dr. Sam e a esposa Esther (já falei deles quando jantei em casa deles) e o noivo da Dra. Eila (chama-se Vinicius e é brasileiro) também foram. A Dra. Susan tinha-me dito o nome do restaurante e para perguntar a opinião do Dr. Scott (o veterinário com quem passei o dia de 6f). Fiquei mais descansada quando ele disse que havia boa comida (ele também disse que metade das vezes que lá tinha ido não tinha gostado mas isso é diferente de ser um restaurante só de fast-food) e mais um bocadinho quando percebi que o Dr. Sam também ia. Chamava-se D&R e a característica mais curiosa era que todos os empregados tinham mais de 60 anos. O Dr. Sam e a Dona Esther são conhecidos pelo nome lá. É algo requintado, não com mil copos e talheres, no entanto. E algo que para nós não faz muito sentido é o facto da água que trazem para a mesa ser água da torneira (como já tinha falado). Comi hambúrguer de alce (na altura não tinha a certeza se o que lá estava era alce porque não tinha a certeza o que raio era “Elk” – mas a Eila pediu e eu também. Eheheh). Na ementa dizia que era uma carne magra e que era servido com frutas – nós “ajavardámos” e pedimos com batata frita. Não é muito usual por cá comer-se sobremesa (apesar da lista – dita por uma senhora de quase 70 anos como se recitasse um poema- neste restaurante até ser bem apetecível. Eheheh) Foi um jantar agradável! Claro que, mais uma vez, não me deixaram pagar o que quer que fosse. Dizem, como pensa o professor Saraiva Lima também, que quando eu for veterinária e tiver estudantes comigo vou perceber.
O mais curioso da noite aconteceu quando íamos a sair do restaurante. O Vinicius, o noivo da Eila, disse-me alguma coisa, eu não percebi e perguntei “What?”. Ele repetiu. O que ele tinha dito que eu não percebi à primeira foi “Você tem falado com a Eila em português?” (com pronúncia brasileira, obviamente)! Só me apeteceu rir porque não percebi o que alguém me disse em português! O meu cérebro formatado para ouvir inglês todo o dia há 3 semanas na altura não entendeu que estava a ouvir português (isso e o facto de estar uma ventania dos diabos quando saímos do hotel e eu não ter ouvido bem)! Eheheh. Foi uma conversa muito curta mas foi bom falar português por um bocadinho!
6f foi também um dia muito
agradável em termos de aprendizagem. O Dr. Scott é um bocadinho estranho, tem
umas reacções algo intespestíveis em relação ao que se passa à volta dele e é
difícil de perceber o que ele diz de vez em quando mas é um excelente
professor! Fomos fazer uma cirurgia de DA (deslocamento de abomaso – para quem
é de fora da área de veterinária, o abomaso é o “verdadeiro” estômago dos
ruminantes: “verdadeiro” não por ser de senso comum que os ruminantes têm 4 estômagos
e eles terem só 1, mas “verdadeiro” por ser o que tem o comportamento
semelhante ao estômago de outros mamíferos, como o nosso, por exemplo) a mais
de 1h de distância de Attica (ao que eu pensei como é que iria ter conversa
para tanto tempo com ele mas acabou por não ser difícil), muito perto do Lake
Ontario. Ele deixou-me fazer a anestesia, explicou como fazia, deixou fazer a
incisão da pele e do tecido subcutâneo (fez ele dos músculos e do peritoneu),
deixou-me procurar o deslocamento e tentar “revertê-lo” e suturar as duas
camadas de músculos (fez ele a piloropexia – sutura do abomaso na zona do
piloro ao peritoneu – por ser a parte de mais responsabilidade da cirurgia e,
como é óbvio, quem está em cheque serem eles, veterinários, se alguma coisa
correr menos bem). Não fiz a sutura da pele porque levámos imenso tempo no
resto – ele explicou-me com pormenor como fazia o que fazia, ajudou-me em
coisas básicas como pegar no porta-agulhas da forma mais eficiente, etc etc.
Quando chegámos à sutura da pele (a parte que melhor sei fazer; eheheh), ele
viu as horas e disse-me que estávamos atrasados e se eu não me importasse fazia
ele.
Na manhã de sábado falei um bom
bocado português com o Vinicius. Ele está a acabar o doutoramento na área de
saúde do pós-parto em vacas na Universidade de Cornell (Ithaca, a 2h30 de
distância, como já cá falei) e foi passar o fim de semana com a Eila a Attica.
Sábado de manhã, a Eila tinha que trabalhar e por isso ele foi com ela. Ele é
veterinário mas nunca fez clínica e, por isso, muitas das coisas são “novas”
para ele. A Eila está a ajudá-lo com várias coisas, como por exemplo com
suturas, porque ele vai começar a Residência em Clínica em Junho. Ele
confessou-me estar nervoso em relação a
isso e eu percebo porquê. Disse-lhe que os ensinamentos da Eila vão ajudar e
que vai tudo correr bem.
Sábado à tarde fui com a Dra. Susan eutanasiar um cão com 15 anos (do senhor que trabalha nas limpezas na clínica; chama-se Mark e é uma simpatia – quando o conheci falámos um bocadinho e foi mais uma pessoa simpática a dizer que o meu inglês é bastante bom). Fomos até casa deles. O cão tinha insuficîência cardíaca em estádio avançado; há alguns dias que tinha cerca de 5 síncopes diárias e passava a maior parte do tempo “sem agir como um cãozinho”, isto é, deitado, prostrado, quieto. A qualidade de vida daquele animal, infelizmente, era bem pouca e para estas situações é que serve a eutanásia. Nesta 3.ª semana comecei a sentir mais saudades de Portugal, aliado ao facto de me sentir insegura em relação aos meus conhecimentos de veterinária; por um lado, eles nunca foram excelentes e em inglês é que não são mesmo! Sinto dificuldade em perceber o que me dizem, várias vezes, muito pelo facto de ter aprendido inglês “normal” e não técnico ou vocacionado para a área de estudos. Claro está que muita coisa estudei por textos em inglês e percebia bem mas isso é muito diferente de ouvir o que nos dizem diariamente e perceber logo do que se está a falar. Essa situação fez-me sentir que precisava de uma pausa, de um tempo sem obrigar o meu sistema a falar diariamente e a tentar perceber tudo o que me dizem (o que é fíficil quando não percebemos uma única palavra, por exemplo, em 5 – não percebemos 20% daquilo que nos é dito e torna-se mais difícil de perceber tudo o que nos foi dito). Isso, a atmosfera em que decorreu a eutanásia – um animal parte da família há 15 anos, e o facto de também ser uma “pet owner” (e estar longe da Li) fizeram-me ir bem abaixo. Caíram algumas lágrimas enquanto estávamos a fazer a eutanásia. E depois caíram mais com a Dra. Susan na carrinha. Ela disse-me que é normal e eu sei que é, que não somos imunes e para pensar na falta de qualidade de vida que o animal tinha. Disse-lhe que sabia disso perfeitamente e que não foi de todo isso que me fez sentir assim.
Fomos ver um edifício onde o namorado dela está a instalar uma ordenha com robots (fantásticoo!) e comer um gelado e a minha disposição mudou bastante! De referir que tínhamos o Cooper (o labrador preto dela) connosco na carrinha e não é que o meu espanto atingiu "medidas enormes" quando percebi que o "Cooper, don't worry, we will bring you ice cream" significava, literalmente, levar um gelado para o cão! Pedimos gelado soft para nós (em cone, com "sprinkles") e ela pediu um copo com gelado para o cão! Estão tão habituados a fazê-lo que até têm disponíveis biscoitos de cão para colocar no copo!! Com o meu espanto (e pelo facto do cão ter devorado aquilo em 2 minutos), não me lembrei de tirar uma fotografia. Americans! Eheheh
Sábado à tarde fui com a Dra. Susan eutanasiar um cão com 15 anos (do senhor que trabalha nas limpezas na clínica; chama-se Mark e é uma simpatia – quando o conheci falámos um bocadinho e foi mais uma pessoa simpática a dizer que o meu inglês é bastante bom). Fomos até casa deles. O cão tinha insuficîência cardíaca em estádio avançado; há alguns dias que tinha cerca de 5 síncopes diárias e passava a maior parte do tempo “sem agir como um cãozinho”, isto é, deitado, prostrado, quieto. A qualidade de vida daquele animal, infelizmente, era bem pouca e para estas situações é que serve a eutanásia. Nesta 3.ª semana comecei a sentir mais saudades de Portugal, aliado ao facto de me sentir insegura em relação aos meus conhecimentos de veterinária; por um lado, eles nunca foram excelentes e em inglês é que não são mesmo! Sinto dificuldade em perceber o que me dizem, várias vezes, muito pelo facto de ter aprendido inglês “normal” e não técnico ou vocacionado para a área de estudos. Claro está que muita coisa estudei por textos em inglês e percebia bem mas isso é muito diferente de ouvir o que nos dizem diariamente e perceber logo do que se está a falar. Essa situação fez-me sentir que precisava de uma pausa, de um tempo sem obrigar o meu sistema a falar diariamente e a tentar perceber tudo o que me dizem (o que é fíficil quando não percebemos uma única palavra, por exemplo, em 5 – não percebemos 20% daquilo que nos é dito e torna-se mais difícil de perceber tudo o que nos foi dito). Isso, a atmosfera em que decorreu a eutanásia – um animal parte da família há 15 anos, e o facto de também ser uma “pet owner” (e estar longe da Li) fizeram-me ir bem abaixo. Caíram algumas lágrimas enquanto estávamos a fazer a eutanásia. E depois caíram mais com a Dra. Susan na carrinha. Ela disse-me que é normal e eu sei que é, que não somos imunes e para pensar na falta de qualidade de vida que o animal tinha. Disse-lhe que sabia disso perfeitamente e que não foi de todo isso que me fez sentir assim.
Fomos ver um edifício onde o namorado dela está a instalar uma ordenha com robots (fantásticoo!) e comer um gelado e a minha disposição mudou bastante! De referir que tínhamos o Cooper (o labrador preto dela) connosco na carrinha e não é que o meu espanto atingiu "medidas enormes" quando percebi que o "Cooper, don't worry, we will bring you ice cream" significava, literalmente, levar um gelado para o cão! Pedimos gelado soft para nós (em cone, com "sprinkles") e ela pediu um copo com gelado para o cão! Estão tão habituados a fazê-lo que até têm disponíveis biscoitos de cão para colocar no copo!! Com o meu espanto (e pelo facto do cão ter devorado aquilo em 2 minutos), não me lembrei de tirar uma fotografia. Americans! Eheheh